Temas para 2017 incluem incertezas políticas e econômicas

Valor Econômico
05/01/2017

Por Paulo Miguel

O ano de 2016 terminou com perspectiva de alguma aceleração na economia mundial, a despeito dos eventos políticos tidos como negativos para a confiança. O crescimento global aponta para o topo do intervalo vigente desde 2011, entre 2,5% e 3,5%, a julgar pelas projeções de organismos e bancos internacionais.

A inflação também mostra alguma aceleração, em parte advinda de retomada nos preços das commodities. Tal combinação já sustentava taxas de juros globais mais altas mesmo antes da eleição de Donald Trump aumentar a probabilidade de políticas de expansão fiscal nos Estados Unidos. A taxa de 10 anos nos EUA passou de 1,5% para 2,5% em poucas semanas e ainda parece ter tendência altista para 2017.

Por outro lado, há muitas incertezas, políticas e econômicas. Não se sabe se Trump conseguirá aprovar seu programa e, mais importante, não está claro que EUA e Europa estão de fato consolidando um ritmo de atividade mais forte, condição necessária para que os juros continuem subindo fortemente a partir do nível atual. Há duas visões em parte concorrentes. A primeira dá mais peso para a tese de estagnação estrutural, que decorreria de fatores como menor crescimento da produtividade e demografia menos favorável. As economias, especialmente as desenvolvidas, estariam presas nesse novo contexto de crescimento menor que nas décadas passadas.

Outra visão é a de que parte relevante da desaceleração dos últimos anos decorre do legado da crise financeira, que forçou um processo de desalavancagem do setor privado nas economias centrais. Neste caso, com menor restrição financeira, haveria a possibilidade de uma retomada cíclica mais forte na economia mundial, potencialmente superando 3,5% ao ano em 2017. Os bons resultados dos últimos meses de 2016 já seriam evidência nessa direção.

O mais provável é que haja elementos das duas teorias em operação. No geral, os últimos dados apontam para um bom desempenho dos EUA e da Europa neste ano, com baixo risco de recaída na recessão. Mesmo a China tem desafiado prognósticos pessimistas, a despeito do claro problema de excesso de dívidas, e mantido ritmo próximo a 6,5% ao ano. Não está dado, por outro lado, que o legado da crise financeira tenha sido superado a ponto de justificar um retorno dos juros globais a níveis pré-crise financeira nos próximos anos.

O cenário também dependerá das reações dos outros bancos centrais à política menos expansionista do Fed. Europa e Japão ainda adotam programas de expansão de balanço e tudo indica que os manterão neste ano de 2017.

Uma alta mais forte e potencialmente desestabilizadora dos juros globais dependeria do rompimento do padrão de crescimento, para cima, e de expansão fiscal agressiva. Mesmo nos EUA, porém, ainda estão em aberto o tamanho e o impacto na economia da pretendida expansão fiscal.

O cenário não pode desconsiderar os elevados riscos políticos para 2017, nas várias regiões. Se até agora os mercados focaram na agenda doméstica pró-crescimento de Trump, não será difícil que passem a dar atenção a eventuais tropeços geopolíticos.

O cenário externo, nesses moldes, não se afigura ruim para o Brasil. A despeito de juros globais maiores, o ambiente de crescimento mundial algo mais forte e a estabilização dos preços das matérias-primas são fatores positivos. As dificuldades brasileiras são domésticas.

Consolidou-se o diagnóstico de que o país enfrenta, além do colapso das finanças públicas, uma recessão de balanço no setor privado, quando famílias e empresas são forçadas a reduzir seu endividamento. Não por acaso, as projeções de crescimento para 2017 continuam a cair e já não se descarta uma estagnação persistente.

Neste contexto, fica reforçada a convergência da inflação para a meta e ampliado o espaço para cortes de juros. O cenário dependerá, porém, da manutenção do esforço reformista, necessário para ancoragem da taxa de câmbio e das expectativas de inflação. A alta incerteza institucional resulta num equilíbrio precário, em que o governo precisará fazer andar a reforma da Previdência, com risco de forte diluição.

O ajuste fiscal está apenas no começo. Sua complexidade e escala - é preciso obter 5% do PIB para estabilizar a dívida - também são inéditos.

O foco no controle de despesas é salutar, mas insuficiente, especialmente se o governo for obrigado a acelerar o ajuste frente a um cenário mais adverso. Dificilmente o país escapará da necessidade de subir impostos. O debate quanto a isso provavelmente será mais intenso neste ano.

Por fim, o BC deve intensificar o ritmo de corte da Selic ainda em janeiro. Aceleração do afrouxamento monetário é fator fundamental para ajudar a estabilizar a atividade econômica. Ao final do ciclo, o país poderá manter taxas de um dígito, se a oportunidade atual de construção institucional não for desperdiçada.

 

Paulo Pereira Miguel é sócio da GPS, empresa de gestão de patrimônio do grupo Julius Baer