Tendência de curto prazo é clara, mas eleição exige proteção, diz GPS

Valor Econômico
16/01/2018

A perspectiva de continuidade da atual política econômica ainda garante uma postura otimista por parte da GPS Investimentos para o mercado brasileiro. A gestora, que administra R$ 26 bilhões em investimentos, aposta em ativos com maior risco, como títulos com juros prefixados e ações.

No entanto, a disputa eleitoral exige operações de proteção contra uma eventual reversão das expectativas. Em entrevista ao Valor, o CEO da GPS, Jan Karsten, destaca que o cenário de investimentos de 2018 é "quase binário", isto é, pode mostrar uma melhora significativa ou uma rápida deterioração. Leia os principais trechos da entrevista.

Valor: Como a GPS está enxergando o cenário de riscos deste ano, incluindo a disputa eleitoral?

Jan Karsten: A gente acredita que o ano é de um cenário quase binário. Tem um lado de avanço das reformas e mais responsabilidade fiscal, que é nosso cenário base. Neste, ainda teríamos investimento crescente, com capital nacional e estrangeiro, e inflação sob controle. O juro real pode convergir para 3% ou 4% ao ano, com um ganho para acontecer, sendo que hoje ainda estamos na faixa de 5%.

Valor: E como seria o cenário alternativo?

Karsten: O outro cenário é um pouco mais preocupante porque tem retorno do populismo, recessão e inflação. Neste caso, temos reformas emperradas, a volta de subsídios para estatais, contas públicas bem complicadas, dívida pública em trajetória insustentável e inflação saindo do controle. E a grande válvula de escape acabaria sendo a depreciação do câmbio. O cenário base é o primeiro, mas temos de levar em conta que o risco do segundo não é desprezível, até porque este é um ano de eleição.

Valor: Como as carteiras da GPS estão sendo trabalhadas para 2018?

Karsten: Em renda fixa, ainda temos preferência por taxas prefixadas. O juro prefixado negociado no mercado está na faixa de 11% para o primeiro semestre de 2020 e, com a Selic em 7%, um papel desse tem um carrego muito bom. A bolsa depende do perfil de risco, porque é um investimento com maior volatilidade. Mas vemos espaço de valorização. Se colocarmos um crescimento de quase 3% em 2018 no PIB, tem sensibilidade grande de alguns setores listados em bolsa. O mercado acionário pode captar com antecedência a retomada da economia, da mesma forma que faz com o ciclo político. E ainda há os multimercados, que tiveram um ano muito bom em 2017 e achamos que continuam tendo condições de capturar oportunidades tanto no Brasil quanto lá fora.

Valor: Mas por causa do cenário de riscos, quais as estratégias para defender a carteira?

Karsten: Temos visão bem clara de tendência econômica de curto prazo, mas temos pouca clareza sobre as eleições. É um pouco difícil de quantificar e, por conta disso, temos usado hedge [proteção] sobre a bolsa. Como a volatilidade no mercado de ações está muito baixa, temos basicamente comprado proteção em opções de venda, que estão relativamente baratas. Isso serve de proteção se por ventura o cenário de populismo e inflação se materializar. 2018 vai ser muito mais difícil para alocar recursos do que o ano de 2017. Vai exigir mais agilidade e maior acompanhamento. Com exceção da crise de meados de maio passado, o ano foi muito bom com rendimentos elevados em várias classes de ativos. E 2018 pode ser bom também, mas não é um ano linear, é um ano mais volátil.

Valor: Tem risco de o cenário mais pessimista ofuscar a expectativa para o cenário base?

Karsten: Isso está muito ligado ao calendário político. Como a disputa começa a esquentar a partir de abril, o primeiro quadrimestre praticamente depende de novos indicadores e novidades de novos casos da economia real, como a geração de emprego, dados de atividade...

Valor: Em fevereiro, há a expectativa no governo de retomar o debate sobre a reforma da Previdência...

Karsten: Isso não vai ser fácil. Somos, de certa forma, céticos sobre a aprovação, apesar de sua relevância para a economia. O nosso foco por enquanto é o andamento da economia real. Logo depois do carnaval, começa a esquentar o cenário político e a posição de mercado não necessariamente será a mesma. Vamos ter de rever e nos posicionar de acordo com o desenho do ambiente político.

Valor: Então, a estratégia traçada até agora vale mais para este começo de ano?

Karsten: Não é possível dizer isso. Se o cenário político que se desenha a partir de abril começar a ir numa linha do melhor cenário, de continuidade de reformas, podemos ter uma melhora de mercado até maior do que vimos nas primeiras semanas de janeiro. Não dá para cravar como estará a posição em março deste ano, por exemplo. Tudo vai ser rápido, feito dia a dia, semana a semana.

Valor: Se o cenário de risco começar a se concretizar, o foco ficará apenas em uma contenção de danos e riscos?

Karsten: Fica muito mais difícil ganhar dinheiro num cenário mais adverso. É um cenário que exige mais foco em renda fixa, as alternativas em multimercados passam a ter papel importante, porque alguns dos fundos que temos alocação hoje têm posição no exterior. E o componente cambial tem papel importe. Eu diria que é quase um cenário de preservação do que um cenário claro para ganhar dinheiro.

Valor: Qual a expectativa para a trajetória do câmbio ao longo do ano?

Karsten: A taxa de câmbio termina o ano praticamente estável em relação ao valor de hoje se o cenário base se concretizar. Deve ficar na faixa de R$ 3,25 e R$ 3,30 por dólar. Mas se for no caminho de candidato de menor responsabilidade fiscal e populismo, vamos ver R$ 3,60 ou até R$ 3,70. Se juntar com juro nos EUA subindo mais rápido, podemos testar níveis de início de 2016 [de mais de R$ 4].