Com juros baixos, mais ricos também terão de buscar risco ao investir

O Globo
26/04/2018

SÃO PAULO - A chance de que o país mantenha baixa a taxa de juros por um período prolongado (a Selic está em 6,5% ao ano e pode cair a 6,25% em maio) vai demandar um comportamento novo do investidor na hora de aplicar seu dinheiro, inclusive dos mais riscos. Esse novo cenário deve trazer mais alternativas de aplicações em títulos privados, como a Letras de Crédito Imobiliário (LCI), ligadas ao setor de construção, ações e renda fixa de longa duração. Essa mudança joga o foco do melhor retorno para os investimentos de longo prazo e com maior risco. As conclusões fazem parte de um relatório divulgado ontem pelo banco suíço Julius Baer, em parceria com a GPS Investimentos e Fundação Dom Cabral.

Além de analisar o atual cenário econômico, o levantamento - que levou dois anos até ser concluído - também investigou as expectativas de brasileiros de patrimônio mais elevado (pelo menos R$ 5 milhões) em relação a seus investimentos. O banco já faz este levantamento em outros países, mas o relatório é o primeiro a ser realizado no Brasil.

- A chance de que os juros permaneçam baixos por um período mais prolongado, desta vez, é mais maior. E as pessoas estão mais conscientes de que para entregar um retorno melhor nessa nova realidade será preciso uma nova forma de investir fora da renda fixa - diz o economista Paulo Pereira Miguel, chefe de investimentos da GPS Investimentos Financeiros, empresa de gestão de fortunas do Julius Baer no Brasil.

O economista lembra que nas vezes anteriores que a Selic atingiu seu mínimo histórico, esse nível não se sustentava por seis meses. O investidor ia buscar aplicações de maior risco, mas acabava voltando para a renda fixa. Agora, diz ele, existe a oportunidade real de que esse ciclo seja mais prolongado. Mesmo diante da eleição presidencial deste ano, com um grande número de candidatos, existe uma consciência comum de que o país tem um problema fiscal. Também há demanda da sociedade para que o país

- As escolhas dos candidatos, independente das nuances ideológicas, vão se pautar por um diagnóstico básico de que temos um problema fiscal. Temos hoje uma política econômica mais consistente, medidas importantes como o teto dos gastos públicos, reforma trabalhista, marco regulatório do setor elétrico, melhora do crédito, além de uma conjuntura econômica mais positiva, com inflação baixa. Falta a retomada da reforma da previdência, do estado, tributária e abertura comercial - analisa Paulo Miguel.

A expectativa é que os juros permaneçam no atual patamar pelo menos até o segundo semestre de 2019. Se as reformas avançarem no novo governo, a Selic pode até subir a 8% quando a inflação recrudescer um pouco. Mas mesmo assim o juro real ficaria próximo de 3%, o que muda o ambiente de investimentos, indica o relatório do Julius Baer.

PESQUISA QUALITATIVA

Outra etapa do relatório foram 154 entrevistas com investidores de patrimônio elevado. Elas foram conduzidas pelas pesquisadoras da Fundação Dom Cabral, Virginia Izabel e Mônica Carvalho. Metade dos entrevistados afirmou que não mudou seu estilo de gestão de patrimônio nos último cinco anos. Entre os entrevistados, 84% acham importante investir seu patrimônio tanto no mercado local, quanto no exterior para diversificar. Essa decisão é majoritariamente tomada com a ajuda de um gestor de patrimônio, segundo o relatório. Mas existe um grande desconhecimento, na amostra pesquisada , sobre empresas de gestão de patrimônio com foco em investimento financeiro.

- Pelo menos 72% dos entrevistados não utilizam esse serviço, não conhecem nenhuma empresa e não sabem que tipo de serviço essas empresas podem oferecer - diz o relatório.

Outro ponto interessante é que, entre as alternativas de diversificação de investimento, a maior parte dos entrevistados ainda não conhece os chamados produtos com impacto social. Pelo menos 61% disseram que não conhecem e 12% afirmaram que não têm interesse nessas aplicações. A percepção, segundo a pesquisa apurou, é que este tipo de produto pode trazer perda de retorno. Alguns, associam o impacto social a caridade ou filantropia, segundo as pesquisadoras. Também acham a sustentabilidade um tema relevante, mas que não é considerado na hora de investir.

- Isso também decorre da falta de uma gama maior de produtos de impacto social no mercado, além de um histórico muito curto de retorno dessas aplicações - diz Rogério Zanin, sócio da GPS, que acredita que a segunda e terceira geração desse investidores dará mais prioridade a este tipo de investimento.

Outra conclusão é que 75% do entrevistados acham relevante a utilização de plataformas digitais para investir. Em ambos os grupos, tanto entre aqueles que não têm gestor de patrimônio como os que possuem, também há desejo de ter mais acesso a educação financeira.