À prova de bipolaridade

VALOR ECONÔMICO
04/06/2014

Títulos indexados à inflação, fundos multimercados e alguma exposição ao exterior. Esse é o receituário básico dos gestores de fortunas para reforçar os portfólios dos clientes no momento. Nada de fincar o pé somente em ativos indexados ao Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), comportamento recorrente entre os investidores. Os fundos DI e de curto prazo são os de maior saldo líquido no ano, com as captações superando os resgates em R$ 30 bilhões até 28 de maio. Na Cetip, o estoque de LCIs e LCAs chegou a R$ 148 bilhões no mês, 50% a mais do que em maio do ano passado.

Para tamanho conservadorismo pesa a incerteza eleitoral, que desenhou um mundo bipolar aos investimentos. A cada resultado, ativos diferentes ganham ou perdem valor. Entre um e outro, o investidor opta por nenhum dos dois. Mesmo diante da falta de visibilidade, os especialistas em alocação de patrimônio reprovam a concentração no CDI e recomendam uma diversificação cuidadosa. São investimentos que até se comportam de forma diferente de acordo com os cenários, mas que tendem a ganhar no longo prazo. Não tê­-los, dizem, é correr o risco de deixar muito dinheiro na mesa.

"Hoje os investidores têm uma preferência por posições menos arriscadas, mas se a carteira está 100% no CDI, o ganho real fica 'sob júdice'", diz Fábio de Oliveira, responsável pela área de investimentos da GPS, que monta portfólios para donos de grandes fortunas. É preciso ter em conta a inflação, diz, ainda mais com a tendência de que o nível de preços continue pressionado. Mesmo um investidor moderado, para a GPS, não deveria ter mais de 70% de recursos indexados ao CDI.

"Se houver um ajuste para restaurar a credibilidade da política econômica, os ativos estão tão desgastados que a expectativa de retorno para os próximos três a quatro anos é bastante substancial", diz Paulo Miguel, que, vindo da Quest, acaba de assumir a área de pesquisa econômica da GPS. E ninguém quer ficar de fora dessa recuperação, caso ela ocorra. Para preencher os portfólios dos clientes, Miguel levantou quais são as opções de investimento que, seja qual for o cenário, têm alta probabilidade de se valorizar, ainda que o prazo e a intensidade variem de um caso para o outro.

O primeiro passo da diversificação, para a GPS, são os títulos indexados à inflação. Por um lado, eles protegem contra a expectativa de um aumento no nível de preços. Por outro, podem trazer ganhos de capital. Para Miguel, seja qual for o cenário eleitoral, o Brasil tem condições de levar os juros a um patamar inferior, principalmente se as taxas no restante do mundo permanecerem baixas por um tempo maior do que o precificado. O risco pode ser controlado por meio do posicionamento em títulos de prazo intermediário, entre 2018 e 2022. Hoje no Tesouro Direto, sistema de venda de títulos à pessoa física pela internet, esses papéis pagam taxa real perto de 6%

O sentimento de que o câmbio está fora do preço correto também faz Miguel esperar uma desvalorização do real no longo prazo, seja qual for o resultado eleitoral. Faz sentido, assim, ter uma exposição internacional. Na bolsa, o cenário não inspira posição superior a 10%, diz Oliveira, que foge das empresas ligadas a consumo. "Os fundos multimercados têm papel importante, porque trazem agilidade", completa, ainda que essas carteiras tenham sofrido no curto prazo por conta de apostas entre as quais na desvalorização do real.

"Como o cenário só vai se delinear daqui a cerca de seis meses, é interessante ter um percentual em fundos multimercados, que assumem posições grandes e têm muito mais agilidade do que a pessoa física para mudar", concorda Ronaldo Caselli, sócio da gestora de patrimônio Consenso. O destino de 5% a 20% do patrimônio a uma seleção de cinco a dez fundos multimercados agressivos, afirma, vai fazer diferença em 2015. A regra é não se deixar levar pela janela dos últimos 12 a 18 meses, em que o cenário errático trouxe prejuízos a muitas dessas carteiras.

Para reduzir o risco Brasil da carteira, os clientes de alto patrimônio têm remetido recursos para o exterior e comprado títulos, ações e ativos imobiliários não disponíveis aqui. Uma alternativa para garantir uma posição na moeda americana via Brasil, diz Caselli, são fundos multimercados dolarizados, como os das gestoras Gávea e Credit Suisse Hedging­Griffo (CSHG). Nesses casos, o investidor fica exposto ao dólar e a ativos estrangeiros, não somente à moeda americana como no caso de um fundo cambial, por exemplo.

Mesmo para quem tem um horizonte de investimento curto, até o fim de 2015, por exemplo, Caselli não descarta uma posição em multimercados e em dólar, ainda que seja uma fatia muito pequena do portfólio. "Uma posição dolarizada tem hoje uma assimetria bastante interessante", diz o gestor de patrimônio. Para ele, o patamar atual do dólar é insustentável e é muito mais provável, nos próximos 12 meses, que a moeda americana se estabilize em patamar próximo de R$ 2,50 do que de R$ 2.

Caselli vê oportunidades ainda em títulos indexados à inflação, sejam públicos ou privados. Ele exemplifica com Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), que pagam taxa real entre 6% e 7% e são isentos de imposto de renda. "Seria interessante se o investidor moderado conseguisse se aproveitar deste momento de prêmios de risco um pouco maiores", afirma.

Para diversificar o portfólio do cliente, a gestora de fortunas G5 dá preferência ao crédito privado de alta qualidade. "Tem boas oportunidades em títulos prefixados e indexados à inflação, mesmo para o investidor conservador", diz André Benchimol, sócio da casa. Esses papéis guardam prêmios em relação às NTN­Bs de mesmo prazo, mas costumam ter pouca liquidez, o que pede um horizonte maior. É preciso também avaliar o risco de crédito do emissor. Quem não tem tempo ou auxílio profissional para selecionar papéis deve se concentrar em emissões mais óbvias, de empresas grandes.

A exposição internacional também faz muito sentido do ponto de vista de diversificação de patrimônio, diz Benchimol, mas deve ser mais bem estudada se o objetivo for ganho de capital. Isso porque o custo de oportunidade, o juro brasileiro, é muito elevado.

Quem apostou cegamente em uma valorização do dólar, por exemplo, pode ter se machucado com a quebra de expectativas recentes. No ano, até maio, a moeda americana perde 4,92% ante o real. "A diversificação veio para ficar, gostamos e utilizamos isso, mas tem que tomar cuidado com o nível de volatilidade do câmbio", diz Bruno Carvalho, sócio responsável pela gestão de patrimônio do Brasil Plural.

Tanto na estratégia de câmbio quanto na de juros prefixados, como ainda vê risco de uma alta de Selic no cenário, Carvalho prefere selecionar gestores de multimercados capazes de aproveitar rapidamente janelas de oportunidade do que comprar ativos diretamente. Essas carteiras podem tomar cerca de 30% do portfólio de um investidor moderado, segundo a recomendação do Brasil Plural. Outros 60% vão para renda fixa pós-­fixada, o que inclui títulos públicos, LCIs e LCAs. Os 10% restantes são dedicados à bolsa, por meio de uma seleção de gestores ativos.

Para que a alocação seja eficiente, Carvalho sugere prazo de investimentos de pelo menos um ano. "O ideal são 12 a 24 meses. Menos do que isso, você tem um compromisso que atrapalha demais a diversificação", diz. Para quem tem grande chances de usar o dinheiro em menos de seis meses, diz, talvez o melhor caminho seja mesmo ficar totalmente indexado ao CDI.

Mauro Rached, diretor da divisão de gestão de patrimônio do BNP Paribas, também vê alta de juros no cenário, mas considera que as NTN­Bs têm hoje uma taxa que remunera bem o risco do investidor. Para quem está disposto a carregar, considera, os papéis com vencimento por volta de cinco anos são atraentes, com volatilidade aceitável. "O alongamento demasiado vira quase que uma aplicação em bolsa", alerta.

Para o investidor que ainda se sente confortável no referencial para aplicações conservadoras, Rached sugere "rebobinar a fita". Nos últimos 24 meses, aponta, o CDI acumulado foi de 17%, contra 14% de IPCA. Do que sobra de taxa real, em alguns casos ainda foi preciso descontar o imposto de renda, diz. Em alguns momentos o resultado chegou a ser negativo, ou seja, a inflação venceu. "O CDI é uma medida de juro nominal, nada garante que proporcione aquilo que interessa ao investidor de verdade: juros reais", diz.