Um ovo em cada cesta

VALOR ECONÔMICO
05/08/2014

Diversificar é um mantra conhecido no mundo dos investimentos, mas não é apenas um ato de fé. Um prato variado composto por títulos de renda fixa pós­-fixados e indexados à inflação, fundos multimercados e bolsa rendeu ao investidor brasileiro, em média, 16,5% a cada um dos últimos 15 anos. Mais do que os 14,7% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), referência para aplicações conservadoras, e muito além dos 14,3% anuais do Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira. O estudo é da gestora de fortunas GPS. Em seus 15 anos, completados hoje, o portfólio, pensado para um investidor entre moderado e arrojado, transformou R$ 100 em R$ 1.112,30. Indexado ao CDI, o mesmo valor chegaria a R$ 836,30. Quem optasse por deixa-­lo em dólares teria hoje R$ 182,30.

Aplicar em IBrX até levaria a um bolso mais polpudo, com R$ 1.720,20, mas às custas de muito mais estômago. Enquanto o índice que mede o retorno de 100 ações oscilou de prejuízo de 41,8%, em 2008, a ganho de 154% em 1999, o portfólio teve trajetória mais suave. Em nenhum dos 15 anos foi o pior ou o melhor investimento, recebendo medalha de bronze em oito deles. A carteira também não registrou prejuízos, variando entre ganho de 3% no pior ano, 2008, e de 40,6% no melhor deles, 1999. "No ano a ano, o portfólio parece ser mediano, mas, na verdade, no acumulado, é bem mais rentável do que a maior parte dos índices", diz George Wachsmann, sócio da GPS. Ao olhar para o passado, o investidor pode até pensar que preferia ter investido todo o patrimônio em títulos indexados à inflação em 2012, por exemplo, ou no dólar em 2008. "Dá para dizer ano a ano que produto foi o carro­chefe. Se você tivesse bola de cristal, seria incrível", completa Wachsmann. Para quem não tem, melhor diversificar. O fato de a carteira balanceada ser menos volátil do que a maior parte dos ativos fica claro no diagrama de rentabilidades montado pela GPS, que lembra a tabela periódica de elementos químicos aprendida na escola. O portfólio ocupa sempre as janelas centrais (veja acima). O modelo é com frequência usado no mercado, principalmente no exterior, para mostrar a trajetória dos ativos. As conclusões valem para um investidor que aplicou, durante os 15 anos, 33% do seu portfólio em CDI, 15%, em IMA­B ­ índice que espelha uma cesta de títulos públicos indexados à inflação de diferentes vencimentos ­, 12%, em IBrX e 40%, em IFMM, indicador criado pelo BTG Pactual que espelha o retorno de uma cesta de fundos multimercados.

Os índices sem histórico completo foram substituídos por similares nos primeiros anos do estudo. A simulação feita pela GPS está próxima a um portfólio verdadeiro criado para as famílias de alto patrimônio atendidas, hoje um total de 500, cujos ativos somam R$ 17 bilhões. Para mostrar de forma simplificada o efeito da diversificação, o levantamento não considera a gestão ativa em relação aos índices e o rebalanceamento do portfólio. Na prática, a carteira tem leves ajustes em relação à neutra a fim de refletir o cenário, o que, se bem feito, tende a agregar retorno.

Com os clientes da casa, a GPS incentiva o olhar de longo prazo para os investimentos, diz Wachsmann. "Você não tenta engravidar hoje e quer ver o filho pronto amanhã. Não toma a decisão de construir uma casa hoje e, no mês que vem, ela está pronta. Nada na vida real é investir hoje para colher no mês que vem." Uma observação mais atenta dos últimos 15 anos traz uma sensação de retornos cada vez menos fartos. De fato, o país convergiu recentemente para um padrão mundial de prêmio de risco mais baixo, tanto na renda fixa quanto na variável, diz Rogério Zanin, também sócio da GPS. "Flertamos com esse mundo e demos alguns passos para trás, mas o caminho provavelmente será voltar para essa trajetória", afirma. O retorno de mais de 20% em um ano, como em 1999, 2003, 2005, 2006 e 2009, tende a ficar no passado, diz Zanin. Com um CDI mais baixo, aumenta a demanda pela assessoria financeira. O estudo não contempla aplicações no exterior, que nos últimos anos vêm representando importante estratégia de diversificação. No caso da própria GPS, para complementar o portfólio, a gestora aloca hoje cerca de 25% do patrimônio do investidor lá fora.

Em países desenvolvidos, um ganho entre 7,5% e 9% ao ano em dólar já é considerado um retorno razoável, diz Marcus Vinicius Gonçalves, diretor­-presidente da Franklin Templeton no Brasil. Somar ativos estrangeiros na alocação significou mais retorno nos últimos anos. Em 2013, por exemplo, o índice de ações americano S&P subiu 29,6%. Não é somente esse, entretanto, o benefício da alocação internacional, diz Gonçalves. "Ter investimentos lá fora te dá um colchão de proteção e reduz a correlação entre os ativos, porque você compra ciclos diferentes", afirma. O investidor também garante assim, aponta, uma parte do portfólio desvinculada de questões internas que acarretam volatilidade, como é o caso hoje do processo eleitoral. No exterior também vale a regra da diversificação, lembra Gonçalves.

Com o elevado patamar do juro brasileiro, a busca do investidor por ativos no exterior tem se concentrado mais na renda variável. A exposição a ativos de fora pode ser feita via uma conta no exterior ou até mesmo por meio de um fundo local que investe 100% fora, com aplicação mínima de R$ 1 milhão. Clientes de varejo podem acessar multimercados, com autorização para investir 20% do patrimônio no exterior, ou carteiras de ações, que aplicam até 10% fora. O que mais importa, diz Gonçalves, é a disciplina, não o "timing", ou seja, a hora certa de aplicar. "O ideal é não pensar muito. Se você resolve escolher o dia certo, a chance de perder dinheiro e abrir mão de resultado no longo prazo é muito grande", afirma. O investidor até pode querer aproveitar oportunidades de curto prazo, dando mais peso à bolsa em algum momento por exemplo, aponta Gonçalves, mas deve separar uma fatia pequena do patrimônio para isso, o chamado portfólio tático. "Nesses dois últimos anos de deterioração do Brasil, a diversificação internacional ajudou bastante. Os portfólios tiveram na componente bolsa no exterior sua melhor condição de retorno", diz Francisco Levy, diretor-executivo da área de gestão de patrimônio do UBS. Ao construir um portfólio variado, diz Levy, o retorno não é a única meta. A casa também busca ativos pouco correlacionados, que se movimentem de maneira diferente. "Dado que eles oscilam de forma diferente, o resultado diário vai ser mais suave do que se você tiver um portfólio só com um ou com o outro", afirma.

Ainda na linha de recorrer à diversificação para reduzir a volatilidade, uma lógica bem conhecida no exterior passou a valer recentemente no Brasil, aponta Guilherme Abbud, diretor de investimentos do HSBC. Ela indica o valor no longo prazo da composição de ações com títulos indexados à inflação. Abbud simulou o desempenho de um portfólio com 50% aplicados no IBrX e 50% no IMA­B. Parece uma combinação explosiva, mas o fato é que, nos últimos dez anos, essa carteira rendeu em média 3 pontos percentuais acima do CDI. A lógica por trás da composição, diz Abbud, é que quedas da bolsa estão relacionadas à perspectiva de recessão. Para combater a desaceleração no crescimento, o Banco Central tende a reduzir os juros, acarretando ganhos para os títulos prefixados. Assim, quando perde em bolsa, o investidor ganha em juro. E vice­versa.

No passado, o padrão não funcionava tão bem no Brasil porque, em períodos de recessão, o BC era obrigado a subir juro para desestimular a fuga de capitais, explica o diretor do HSBC. "O grande pulo do gato é o momento em que o Brasil deixou de ser um eterno candidato à insolvência", diz Abbud. "Essa foi uma tremenda mudança para a construção do portfólio no Brasil, mas infelizmente para os clientes ainda não é trivial", diz. Em geral, o investidor acredita que, se uma parte grande da carteira está em bolsa, o restante deve estar bem seguro, de preferência indexado ao CDI. A correlação não é perfeita. Em 2013, por exemplo, bolsa e IMA­B renderam prejuízos. Por isso, Abbud recomenda a composição para um período de mais de dez anos. É um bom destino, avalia, para os recursos da previdência. "O incremento do retorno hoje passa pelo aumento de risco", diz Guilherme Benites, sócio da Aditus Consultoria Financeira. Isso não significa necessariamente mais risco de mercado, considera, mas de crédito, por meio do acréscimo de títulos corporativos à carteira, ou de liquidez, via novos tipos de ações, como "small caps". No caso do investidor de pouco patrimônio, Benites alerta que é preciso ficar atento aos custos na hora de diversificar. Concentrar os investimentos em alguns ativos costuma garantir taxas mais baixas. Nesse caso, selecionar alguns fundos multimercados que recorrem a um grupo variado de estratégias pode ser uma boa alternativa.