Portfolio à la Aécio

VALOR ECONÔMICO
07/10/2014

A virada que se deu nas urnas no domingo começa a contaminar também os portfólios dos fundos. A inesperada chegada de Aécio Neves (PSDB) ao segundo turno com 33,6% dos votos, contra Dilma Rousseff (PT), com 41,6%, surpreendeu gestores de recursos e pautou reuniões para revisão de posições ontem. Mais afeitos ao longo prazo e cautelosos com um cenário ainda binário, gestores e alocadores preferem ações que se beneficiam de um eventual governo Aécio, mas que também têm fundamentos próprios positivos, e evitam vencimentos muito distantes em juros, mais sujeitos à volatilidade.

Para o câmbio, eles alertam que a tendência estrutural é de alta, ainda que haja alívio imediato com base na disputa eleitoral. A gestora Indie Capital tem se posicionado em ações mais sensíveis ao cenário político, mas prefere as com maior previsibilidade de preço, o que, na visão da casa, exclui Petrobras. Além de estar muito sujeita à bipolaridade do cenário, a estatal sofre com uma defasagem nos preços dos combustíveis ainda maior por conta da desvalorização recente do real, aponta o sóciogestor Luiz Guerra. "Hoje operamos Aécio via BM&FBovespa, Itaú Unibanco e Cosan ", diz Guerra. Como outras gestoras, a Indie tem buscado explorar assimetrias, ou seja, ativos para os quais os preços não refletem bem as probabilidades atuais de vitória de Dilma ou Aécio.

A casa considera probabilidade de 50% para a vitória de cada um deles. Na seleção para o portfólio, prefere papéis para os quais, no pior cenário, a perspectiva de desvalorização não é muito significativa. "São ativos de qualidade e bem posicionados", afirma Guerra. Entre as posições que a Indie montou recentemente, com base nos resultados das pesquisas, mas também nos próprios fundamentos da empresa, está BM&FBovespa. Para a casa, o papel pode chegar a valer R$ 16 em um cenário de vitória da oposição. Itaú, que poderia chegar a R$ 48 na opinião de Guerra, é outra ação pelo qual se sente atraído.

A tese para Cosan está ligada a um eventual apoio de Marina Silva (PSB) a Aécio. "Ela pode cobrar a defesa do setor de açúcar e álcool em troca do apoio", diz Guerra. São Martinho também poderia se beneficiar desse contexto. É preciso tomar cuidado com os exageros, ressalva o gestor. "Não necessariamente nada vale se Dilma for reeleita", afirma. Empresas exportadoras poderiam se beneficiar de um segundo mandato da presidente, diz, por conta de um real mais fraco, motivado pela falta de credibilidade para ajuste fiscal e risco de rebaixamento de rating.

Na Ibiuna Investimentos, segundo Caio Santos, sócio­responsável pela área de relações com investidores e produtos, a decisão foi reduzir as posições já para o primeiro turno devido à volatilidade nas últimas semanas e à falta de previsibilidade. "O pouco de exposição em risco que temos é via opções em bolsa, com estruturas que permitam ganhar em cenários extremos", conta. A visão segue de cautela, segundo Santos, apesar de a oposição ter saído mais forte do primeiro turno. "Estamos reavaliando o cenário, mas acreditamos que o momento é de esperar", afirma. Além de ser uma eleição difícil, imprevisível, Santos lembra que o cenário externo também tem impacto sobre os ativos locais, especialmente o dólar.

Para o diretor de renda variável da Franklin Templeton, Frederico Sampaio, a bolsa refletiu muito rapidamente o cenário de segundo turno com Aécio, sem dar chance à montagem de posições. "Está bem próximo do razoável e deve ficar aí enquanto não houver fatos novos", considera. Dentre as novidades com potencial para mexer com a bolsa, ele aponta as próximas pesquisas de intenção de voto, a serem divulgadas na quinta­feira. A gestora concluiu que há um longo caminho para Aécio entre a vitória no primeiro e no segundo turno depois de se dedicar ao cálculo de votos. Aécio precisaria converter perto de 70% dos votos de Marina Silva (PSB) para alcançar Dilma, avaliou a casa. "Não é tarefa trivial", diz Sampaio. Por enquanto, ele prefere ficar posicionado em empresas que oscilam menos ao sabor da disputa eleitoral e que têm poder de mercado e resultado consistente para atravessar as tormentas no meio do caminho.

Na renda fixa, a gestora Quantitas aumentou a convicção sobre posições em títulos públicos prefixados com vencimento em janeiro e abril de 2015, mas não ousou alongar os prazos, ainda que os ganhos nos papéis de vencimento próximo sejam menos fartos. "Em vez de montar uma posição menor em vértice longo com risco estrutural, prefiro ficar bem curto e fazer uma posição maior", diz Rogério Braga, gestor de renda fixa. Fundamenta a aposta em vencimentos curtos o fato de a curva de juros refletir hoje a expectativa de uma elevação de juro ainda neste ano e outra no começo de 2015, aponta Braga, considerando o retrato exagerado. Ainda que Aécio seja eleito, a decisão de iniciar rapidamente um ciclo de alta da taxa não é tão óbvia com a atividade econômica lenta como está, considera a Quantitas, uma das maiores do país em renda fixa, com um total de R$ 13,5 bilhões sob gestão. Ou seja, na visão da casa, há espaço de fechamento de juros e, assim, de ganhos com esses papéis.

Contra os títulos mais longos pesa, para Braga, o fato de o cenário ser ainda muito binário, com grande chance de reeleição de Dilma, mesmo com Aécio mais votado do que o esperado no primeiro turno. "O mercado poderá estressar bem caso a vitória do governo aconteça. Por mais que eu acredite que tenha prêmio estrutural, não sei se essas posições podem suportar uma vitória do governo atual", diz, considerando que pode haver uma fuga dos papéis mais longos.

A GPS, maior gestora de fortunas independente do país, também evita no momento alongar os prazos em renda fixa atrelada à inflação. A casa, do grupo suíço Julius Baer, estava com alocação acima da neutra nesse tipo de ativo, ao contrário da bolsa, e vinha aumentando a exposição dos clientes, assim como alongando os vencimentos, mas freou o movimento no começo de setembro. "A volatilidade estava intensa demais", diz o sócio George Wachsmann. Não há intenção de aumentar a posição ou alongar os prazos até o segundo turno. "Acho mais provável, no caso de uma arrancada de Aécio, aproveitarmos para pôr no bolso um pedaço do ganho, mesmo aproveitando só um pedaço do movimento, do que ir na onda e aumentar ainda mais, porque achamos que a eleição vai ser muito disputada", afirma. A desvalorização do real ante o dólar não é motivo para relaxar com a fatia do portfólio aplicada no exterior.

É bom lembrar que a cotação é uma composição da disputa eleitoral interna e do que vai acontecer com os juros americanos, diz Wachsmann. Há cerca de 24 meses, a GPS recomenda que os clientes destinem de 30% a 50% de seus recursos a investimentos fora. Mas isso não significa comprar dólar. Considerando os juros atuais em 11%, simplifica o sócio da GPS, quem compra dólar hoje a R$ 2,40 precisa que a moeda americana chegue a R$ 2,66 em um ano para empatar com o custo de oportunidade. Agora, se os recursos foram aplicados em ativos no exterior, pode haver, além do benefício da diversificação do risco, um ganho real.

Apesar da euforia com que reagiram os mercados ontem, André Leite, sócio da gestora de patrimônio TAG Investimentos, diz que desde o início do processo eleitoral a casa tem adotado o conservadorismo. "Estamos com bastante caixa, esperando uma melhor definição do cenário", diz. Segundo ele, bolsa e dólar indicam 50% de chance de vitória para cada candidato, o que torna as apostas binárias. O mercado trabalha com um Ibovespa a 70 mil pontos no cenário de Aécio presidente e a 45 mil pontos no cenário de reeleição de Dilma, conta. Ontem, o índice fechou na casa dos 57 mil pontos, no meio do caminho. O mesmo indica o dólar. Leite afirma que, no caso de manutenção do governo anual, a cotação esperada para a moeda americana é de R$ 2,75. Já no cenário de troca de presidente, o dólar pode recuar para R$ 2,15. Pelo fechamento de ontem, de R$ 2,42, o potencial de perda e de ganho é praticamente o mesmo. "É um jogo de ganhar ou perder", destaca. "Mesmo que a gente perca um pedaço do movimento, o melhor é investir com racional econômico, já que a TAG é um family office que tem como mandato preservar o dinheiro do cliente", completa.

Para Leite, a eleição vai ser decidida no detalhe, e a definição só deve sair mesmo das urnas, após o segundo turno. Já as corretoras, mais dispostas a surfar movimentos de curto prazo, começaram a semana sugerindo alterações em suas carteiras recomendadas com base na confirmação da disputa entre Dilma e Aécio. Concórdia fez troca para incluir ações da Petrobras, enquanto XP Investimentos e Socopa decidiram elevar o peso da estatal no portfólio, entre outros papéis. "Apesar de ainda acreditarmos no potencial de Lojas Renner, iremos desfazer a troca realizada na semana anterior, voltando com Petrobras, devido aos resultados do primeiro turno das eleições, que deverá impulsionar os papéis do 'kit eleição'", destacou a Concórdia, em relatório.

A XP Investimentos destaca que, depois de adotar uma postura conservadora na semana passada por conta do primeiro turno, decidiu aumentar a exposição em ações sensíveis ao cenário político. Assim, sugeriu aumentar a posição em Petrobras, cujo principal acionista é o governo brasileiro, e Itaúsa, grupo apoiado quase que exclusivamente em Itaú Unibanco. A corretora aproveitou ainda o espaço na carteira obtido com a redução em papéis como Embraer e Cielo para elevar o peso de BB Seguridade. Na Socopa, Petrobras teve seu peso elevado para 14% na carteira, ante cerca de 9% de exposição na última semana. Ações de estatais e do segmento de serviços financeiros estavam entre as mais beneficiadas ontem pelo fortalecimento da oposição.