Proteção contra inflação é hoje ativo raro no mercado

VALOR ECONÔMICO
03/12/2014

O investidor tem tido de rebolar mais para proteger seu patrimônio da inflação nos últimos tempos. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), inflação oficial, teve um alívio no mês de outubro, mas em 12 meses, ao alcançar 6,59%, ainda ficou acima do teto da meta do Banco Central (de 6,5%).

Foi o terceiro mês consecutivo em que o indicador superou o limite em 12 meses. Em setembro, o IPCA tinha sido de 6,75%. Vale lembrar, contudo, que para o indivíduo de alta renda a inflação que mais pesa é a de serviços, que inclui saúde e educação privados, alimentação fora do lar, empregado doméstico, cabeleireiro, viagens, entre outros. Desde 2011, esse indicador tem rodado entre 8,5% e 9% ao ano. No ano passado, ficou em 8,7%. No período de 12 meses até outubro último, a inflação de serviços ficou na faixa de 8,5%. E isso a despeito da desaceleração econômica. "Não vejo essa inflação desacelerando fortemente, há um componente de inércia importante, além do desemprego baixo", afirma Claudio Mifano, sócio responsável pela área de gestão de patrimônio da Claritas Investimentos. Serviços médicos e de educação são reajustados anualmente, exemplifica.

Na visão de Mifano, mais do que proteger o portfólio, o investidor precisa buscar ganhos de capital, ou seja, acima da inflação. A NTN­B é uma opção, uma vez que paga uma taxa prefixada mais correção pelo IPCA, mas há alternativas. George Wachsmann, sócio da gestora de patrimônio GPS, destaca as debêntures de infraestrutura, que pagam um prêmio sobre a NTN­B e são isentas de imposto de renda. O mercado imobiliário também traz algumas oportunidades, segundo o sócio da Claritas, seja em compra direta ou em fundos imobiliários. Mas é preciso cautela acerca do preço pago e da perspectiva de utilização do empreendimento adquirido, diretamente ou via fundo. "Apesar de ter certa proteção por conta do reajuste anual da renda gerada, como a receita do aluguel, pela inflação, não é um argumento deliberado para todas as pessoas", afirma.

Ações de shoppings também servem de proteção contra inflação. Mas como lembra Saulo Holzmann, sócio da gestora de patrimônio Quadrante Investimentos, o cenário macroeconômico dificulta recorrer a ativos de risco, como a bolsa brasileira. A verdade é que hoje os instrumentos para proteger a carteira são poucos, considera, já que se tem um quadro de inflação alta com baixa atividade econômica. "Tem sido como enfiar redondo no quadrado", brinca. Entre as poucas alternativas de proteção, ele cita debêntures e o setor imobiliário. Holzmann conta ainda que de 80% a 90% dos clientes da casa são 'CDI oriented', ou seja, são guiados pelo índice de referência para aplicações conservadoras. "Para poucos o que importa é debelar a inflação", afirma. Sobre as NTN­Bs, diz, há o porém da volatilidade. "O valor do papel oscila ao sabor das expectativas para os juros." Mas para quem tem estômago e está disposto a ficar com o título até o vencimento, ele recomenda a aplicação no papel.

No BTG Pactual, afirma Rogério Pessoa, chefe da área de gestão de fortunas, os clientes de alto patrimônio em geral têm uma carteira grande de imóveis, o que ajuda na proteção contra a alta do nível de preços, o que pode ser completado com fundos imobiliários. Debêntures e títulos incentivados, como Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), também podem ser compradas indexadas ao IPCA, aponta Pessoa. Ele diz que tem orientado os investidores mais preocupados a dar preferências aos ativos atrelados à inflação. "Mas o cliente ainda prefere o CDI", destaca, apesar de a inflação ser uma preocupação mais frequente hoje, dado que ela tem namorado o teto da meta. O BTG também tem em casa um fundo que investe em florestas, com prazo de 15 anos, pouco comum no Brasil, mas considerado globalmente como um bom hedge contra o aumento no nível de preços.

O ativo costuma ser altamente correlacionado à inflação porque o valor da madeira costuma contribuir de forma expressiva para o nível de preços da economia. A Claritas é outra que recomenda os fundos florestais para o cliente de altíssimo patrimônio, segundo Mifano, justamente pela correlação positiva do ativo com a inflação no longo prazo.