Fortunas em escala

VALOR ECONÔMICO
15/12/2014

Em um momento de pouca geração de riqueza no país e de margens apertadas, é preciso ser forte para conquistar os donos de grandes fortunas. É nesse contexto que o grupo Brasil Plural segregou a área voltada a esses clientes, com cerca de R$ 2 bilhões sob gestão, para se tornar minoritário em uma nova gestora de patrimônio, a Triar, em que se une a outros dois administradores de fortunas: Tribeca, com R$ 1 bilhão, e Asset Financial Services (A7), com R$ 1,5 bilhão. O novo escritório, que abre com mil clientes, será inaugurado hoje em São Paulo, no complexo do shopping Cidade Jardim. Atualmente o Brasil Plural integra as estatísticas de private banking, um mercado de R$ 632 bilhões, segundo os dados mais recentes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), referentes a setembro.

A ideia, entretanto, é que, separada do banco, a Triar seja um gestora de patrimônio. O segmento, regido por um código da Anbima, é ainda pequeno, com R$ 64 bilhões em junho. Os gestores de patrimônio, assim como o private banking, divulgam somente dados consolidados, de tal forma que não há um ranking do segmento e as informações disponíveis de patrimônio administrado são as divulgadas por algumas das casas. Entre os nomes mais conhecidos do segmento, também chamado de multi­family office, estão GPS, Consenso, G5, Reliance, Pragma, Turim e Taler.

Com a fusão, Brasil Plural, Tribeca e A7 saem do grupo das pequenas para se aproximar das gigantes. O setor de gestores de patrimônio ainda tem muitas casas de pequeno porte, mas esse retrato vai mudar nos próximos anos, acredita Rodolfo Riechert, presidente do Brasil Plural. "Esse mercado vai se consolidar por bem ou por mal", diz. Por um lado, o cenário brasileiro pouco animador no curto prazo tem levado o investidor a ficar bastante conservador, aponta, privilegiando produtos menos sofisticados e, assim, menos rentáveis para essas casas. Por outro, diz, o cliente está cada vez mais interessado em possibilidades que exigem equipes mais especializadas, como a de aplicar recursos no exterior. "Esse negócio é um jogo de escala", afirma. Para Riechert, casas com patrimônio inferior a R$ 1 bilhão não devem sobreviver. O plano do Brasil Plural é participar da consolidação desse mercado por meio da Triar, diz Riechert, que tem conversado com outras casas, possíveis futuros sócios. Em setembro, o banco já havia incorporado uma carteira de R$ 900 milhões de clientes de alto patrimônio do Banco Espírito Santo Investimentos (Besi), que também passam a ser atendidos pela nova empresa.

A plataforma nasce com capacidade para receber novos sócios, diz Bruno Carvalho, que passa a cuidar apenas da gestão de fortunas na Triar, função que acumulava com a de distribuição de produtos na gestora de recursos do Brasil Plural. "Vemos como uma oportunidade a oferecer a quem quer buscar algo pronto, instalado, que sirva para se plugar", afirma. Carvalho e os sócios da A7, Carlos Foz e Fernando Figueiredo, vão ser os executivos principais da Triar, responsáveis por tocar o negócio. Carvalho e Foz trabalharam juntos no passado, no Banco Pactual. As casas conversavam sobre uma possível fusão, assim como com a Tribeca, há cerca de oito meses. O valor mínimo de patrimônio para ser atendido pela Triar é flexível, pode ser reduzido se houver um potencial expressivo de crescimento do cliente, mas o alvo, segundo Riechert, é de investidores com ao menos R$ 5 milhões. A expectativa do executivo, sem considerar aquisições, é de chegar a R$ 8 bilhões de patrimônio sob gestão em três a quatro anos. A Triar começa a funcionar hoje com 40 funcionários: dez vindos do Brasil Plural, dez da Tribeca e 20 da A7.

A estrutura é mais enxuta do que a simples soma das três, com a possibilidade de reduzir, por exemplo, a equipe de "back office". Ficou de fora da nova empresa Eduardo Haber, que havia fundado a Tribeca no começo deste ano ao deixar a Advis, gestora de recursos que ajudou a criar em 2005. A Advis era uma evolução da Advisor, consultoria financeira criada por Haber em 1997. A Triar vai montar veículos, a maior parte deles exclusivos ou restritos a uma única família, recheados de fundos de diferentes gestores para os clientes de alto patrimônio, no modelo chamado de plataforma aberta. Apesar de o Brasil Plural ter participação na Triar, os sócios afirmam que não haverá um privilégio aos produtos do banco. "Isso está muito claro para os sócios. Eu só vou colocar dinheiro no Brasil Plural se o fundo tiver mérito e fizer sentido para meu cliente", diz Foz.

Por outro lado, aponta, a proximidade do Brasil Plural pode ajudar a estruturar produtos customizados. O modelo da Triar, segundo Foz, será o da transparência de remuneração que prega o código do gestor de patrimônio. A casa pode ser remunerada somente pelo cliente ou receber comissões dos gestores pelos fundos que distribui, os chamados "rebates". A regra é que o investidor esteja sempre ciente do formato escolhido. O histórico dos dados de gestão de patrimônio é curto, com início em dezembro de 2012 e divulgação semestral. De lá até o relatório mais recente, de junho, o valor sob gestão cresceu 19%. No mesmo período, os recursos no private banking, partindo de uma base maior, avançaram 15%, contra uma média de 22% ao ano entre 2010 e 2012. Com menor geração de riqueza, o ritmo cai. Riechert, do Brasil Plural, continua a acreditar no potencial de expansão do segmento, ainda que veja um período de ajuste e baixo crescimento do país nos próximos um ou dois anos.