Alocador de fortunas busca fundos se surpresas

VALOR ECONÔMICO
06/01/2015

Troca do gestor e desobediência ao mandato são os principais motivos que levam os alocadores de fortunas a abandonar um fundo. Não é algo recorrente. Quando os chamados gestores de patrimônio deixam­-se seduzir por uma carteira, depois de um longo processo de seleção, a ideia é ficar por anos. "Somos muito seletivos, demoramos para casar, mas quando casamos tentamos ficar bastante", afirma Antonio Martins, que seleciona fundos na GPS. "Quando fazemos uma alocação dessas, queremos ficar por dez anos", diz também Ronaldo Caselli, sócio da Consenso. As regras para rompimento, entretanto, são rígidas. Se o gestor do fundo deixar a casa, seja por uma briga societária, fim da sociedade ou qualquer outro motivo, Martins conta que a regra é retirar o dinheiro, mesmo que ele seja rapidamente substituído. "Podemos até voltar, mas o primeiro momento é sempre de resgate, ainda que tenha vindo o Warren Buffett", afirma Martins.

A ordem é recomeçar todo processo de análise da gestora de recursos, uma peneira que, na GPS, maior gestora de patrimônio do país, aprova, em média, um fundo em cada 15. "Nosso processo é focado em buscar motivos para não investir", diz Martins. Na análise, todos os fundos passam pelo que a GPS chama de metodologia dos quatro "p" ­ pessoas, em que entram reputação, experiência, formas de incentivo; processo, em que são avaliadas formas de tomada de decisão e geração de ideias; performance, em que pesa o desempenho em momentos bons e ruins; e portfólio, com análise de critérios como liquidez, concentração e alavancagem. A avaliação da estrutura vai mais fundo, chegando aos provedores de serviços da gestora em questão. Uma mudança societária é também o evento mais provável para alterar a alocação em um fundo na Consenso. "Saímos para decidir sem viés", diz Caselli.

A G5 também saca recursos no caso da troca do gestor, mas pesa mais a falta de disciplina. "O pior erro que o gestor pode cometer é quebra de mandato, quando ele se propõe a fazer uma coisa e faz outra. O combinado não sai caro", diz Michael Gagliardi, responsável pela seleção de fundos na casa. O gestor deve ter liberdade para não trabalhar amarrado, considera, mas nenhum ato dele pode surpreender o alocador. A G5 já retirou um gestor da carteira sem direito a volta porque ele não respeitou o nível de "stop loss", ou seja, não zerou posições diante do nível máximo de prejuízo com o qual havia se comprometido.

Na Tag Investimentos, depõem contra o fundo a quebra de mandato, a desobediência ao controle de risco e um giro muito grande na equipe. "Essa é uma indústria feita por talentos. Se você perde e não consegue repor, isso é muito negativo", diz o sócio André Leite. Não entender a estrutura societária da gestora também pesa contra na seleção da Quadrante Investimentos, segundo o sócio Alvaro Marangoni. A casa em análise perde pontos se for impossível chegar aos sócios controladores ou se o gestor declarado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não for o real responsável pelo fundo.

É claro que o cenário econômico também tem seu peso. Dependendo das tendências, uma classe de ativos ou outra tende a se destacar e cabe ao gestor de patrimônio alocar mais ou menos recursos nela. Ainda assim, as carteiras preferidas desses gestores de patrimônio são bem constantes. No caso da Quadrante, por exemplo, apenas um gestor foi eliminado e outro adicionado nos últimos 18 meses.