Fortuna em fuga

VALOR ECONÔMICO
09/03/2015

Um segmento ainda nascente no Brasil, dos gestores de fortunas, pisou no freio em 2014. Perdeu 727 clientes e somou apenas R$ 127 milhões ao valor sob gestão, um crescimento de 0,2%, muito abaixo dos 21% do ano anterior. A geração de riqueza nova foi limitada, algumas casas deixaram o mercado, as letras de crédito isentas reduziram o apelo de alocações sofisticadas e, para completar, os clientes que restaram remeteram um grande volume de recursos para investir no exterior. Hoje os clientes dos gestores de patrimônio são 3.874 famílias com patrimônio médio de R$ 16,7 milhões.

Mesmo partindo de uma base muito menor, os gestores de patrimônio cresceram menos do que seu principal concorrente, o private banking, que avançou 11,76% em 2014. Hoje a fortuna gerida em bancos é de R$ 645 bilhões e, fora, de R$ 65 bilhões. As estatísticas do gestor de patrimônio, com série histórica iniciada em 2012, não permitem diferenciar captação de rentabilidade, mas o crescimento inferior ao Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) e a redução no número de clientes induz à conclusão de que realmente houve uma fuga de recursos do segmento.

O encerramento de operações contribuiu para o encolhimento do número de famílias atendidas. O Royal Bank of Canada (RBC), que atuava no Brasil somente como gestor de patrimônio, decidiu encerrar as operações na América Latina no fim de 2013. Também a gestora Advis, ao perder grande parte do patrimônio de seus fundos em seguida a um período de desempenho ruim, reduziu sua área de gestão de fortunas. Hoje são 17 casas aderentes ao código de gestão de patrimônio da Anbima e que participam das estatísticas do segmento.

Consideradas as mesmas instituições em 2013 e em 2014, o crescimento dos gestores de fortunas ainda seria menor do que o CDI, de 4,1%, conforme os cálculos da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima). E o número de clientes teria crescido 10,3%, também de acordo com o representante do setor.

O resultado é pontual, para Richard Ziliotto, sócio da Taler e presidente do comitê de gestão de patrimônio da Anbima. "A tendência é que os participantes do código cresçam ao longo do tempo. Comparamos muito com mercados mais maduros, onde esse segmento tem tido crescimento", defende.

O crescimento seria muito maior se os dados incluíssem os recursos dos clientes investidos no exterior sob a assessoria dos gestores de patrimônio locais, considera José Eduardo Martins, sócio da gestora de patrimônio GPS, a maior do segmento, com R$ 19 bilhões sob gestão. Os números da Anbima somente consideram o valor investido fora via fundos locais. "Houve um movimento muito forte de famílias remetendo os recursos para o exterior", destaca Martins.

Para investir fora, os clientes de patrimônio muito elevado em geral usam suas próprias estruturas, como empresas com otimização tributária, afirma também Carlo Moratelli, diretor da More Invest. "Foi um período de eleição, com muitas incertezas em relação ao país e uma crise de credibilidade", diz, considerando que os investidores continuam mandado recursos para fora. Como a intenção não é somente aproveitar retornos mais fartos fora, mas também fugir do risco Brasil, muitos preferem fazê-­lo via veículos sem domicílio local. Investidores de patrimônio elevado têm hoje pelo menos um terço do dinheiro alocado fora, diz Moratelli.

As Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) também cobraram seu preço. Elas seguem como as principais concorrentes do serviço de consultoria, diz Martins, da GPS. Os prêmios isentos estavam ali disponíveis em um momento em que uma parte dos investidores ficava desanimada com as fortes instabilidade e volatilidade do mercado.

Os gestores de patrimônio até compraram LCIs e LCAs para seus investidores, mas pagar a um alocador sofisticado para selecionar tais títulos pode parecer sem sentido aos olhos do investidor. Ainda mais, aponta Martins, ao se considerar que as taxas não variam muito entre a compra de grandes volumes e pequenas quantidades. Ou seja, o investidor poderia ir diretamente ao banco alocar sua fortuna nas letras.

A fuga do risco fica clara na análise dos portfólios. O cliente médio do gestor de patrimônio tinha, ao fim do ano passado, 40,1% do patrimônio em renda fixa, 25,6% em fundos multimercados, 23,2% em renda variável, 7,5% em estruturados e 3,2% em previdência. A alocação em renda fixa cresceu 19,5%, concentrada em títulos privados. Em contrapartida, o valor investido em multimercados encolheu 19,6%. Essas carteiras cobraram paciência do investidor no ano passado ao sofrer com a dificuldade de acertar movimentos direcionais, como do dólar.

A volatilidade dos multimercados fica evidente em um levantamento feito por um gestor de patrimônio que preferiu não ser identificado com os 257 fundos multimercados com mais de R$ 50 milhões em patrimônio, desconsiderados exclusivos e institucionais. Apenas 38% tiveram retorno acima do CDI no ano passado. E, para piorar, a lista dos 15 fundos de melhor desempenho no primeiro semestre tem apenas uma carteira em comum com o grupo das que se destacaram na segunda metade do ano.

Para esse alocador, os gestores de patrimônio podem ter sido punidos pela falta de paciência do investidor por terem um portfólio mais diversificado no risco. Os clientes dessas casas começaram 2014 com um total de 56% dos recursos alocados em fundos multimercados e em carteira de ações, dois tipos que sofreram ao longo do ano passado.

Martins, da GPS, diz que 2014 foi o pior de seus 15 anos de história em gestão de patrimônio. Eventos como as eleições, com revezamento de candidatos na liderança, e Copa do Mundo prejudicaram a visibilidade do cenário e fizeram os investidores deixar de acreditar no portfólio

A falta de paciência cobra seu preço neste começo de ano, com os multimercados, por exemplo, voltando a ter desempenho positivo. "Os portfólios que sofreram estão ganhando agora", diz Martins, considerando que nem sempre é possível refazer rapidamente as carteiras sofisticadas. Quem comprou papéis isentos sem liquidez, por exemplo, não vai conseguir aproveitar eventuais oportunidades que surgirem em breve no risco.

O fato é que a saída de clientes tornou o serviço de gestão de patrimônio ainda mais exclusivo. O valor médio por investidor subiu de R$ 14 milhões para R$ 17 milhões. O mínimo necessário para ser cliente do serviço está em debate neste momento no comitê de gestão de patrimônio da Anbima. Hoje, na teoria, basta ser qualificado, ou seja, ter mais de R$ 300 mil em aplicações financeiras. A partir de julho, entretanto, com a entrada em vigor da Instrução nº 554, esse valor sobe para R$ 1 milhão. O comitê vai montar um grupo de trabalho para decidir se ser um milionário passa a ser o novo filtro ou se o termo qualificado será eliminado e se manterá o valor de R$ 300 mil.

"É provável que façamos uma mudança no código", diz Ziliotto, presidente do comitê de gestão de patrimônio da Anbima. Ainda que o valor médio por cliente seja hoje bastante superior, Ziliotto diz que não há impedimento para que uma casa trabalhe com um cliente médio de R$ 300 mil.

Na prática, o cliente pequeno não tem vez, pelo menos até o momento, no atendimento personalizado e com transparência de remuneração que dita o código do gestor de patrimônio. A ideia, entretanto, diz Ziliotto, é que quem encontrar uma técnica de alocação dinâmica e eficiente para tal possa fazê-­lo.