Risco valeu a pena, mas investidor ficou fora

VALOR ECONÔMICO
07/05/2015

O risco compensou em abril. Mas boa parte dos cotistas da indústria de fundos de investimento brasileira assistiu a essa festa do lado de fora. Enquanto carteiras de ações surfaram a alta da bolsa e renderam até 14,29% no mês, caso da categoria setorial, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os portfólios de renda variável registraram saques líquidos de R$ 2,3 bilhões no período.

Depois da categoria setorial, que reúne portfólios concentrados em um setor ou em apenas um papel, caso de fundos de Petrobras e Vale, os maiores retornos de abril foram vistos entre as carteiras IBrX ativo, com 7,47%; sustentabilidade/governança, que teve ganhos de 6,45%; e dividendos, com rentabilidade média de 5,54%, segundo a Anbima.

Mesmo o menor ganho entre os portfólios da renda variável, de 2,01%, conseguido pelos fundos small caps, que investem em papéis de empresas de menor liquidez, superou o melhor retorno da renda fixa, obtido pelas carteiras renda fixa índices, com 1,48% no mês passado.

Movimento parecido ao da renda variável ocorreu nos multimercados. Embora as categorias tenham exibido retornos díspares, que variaram do ganho de 1,96% das carteiras trading à perda de 1,25% das multiestratégia, a classe reúne alguns dos melhores resultados tanto no ano quanto em 12 meses. Em 2015, os portfólios macro e multiestratégia mostram rentabilidades de, respectivamente, 8,48% e 6,02%, bem acima dos 3,78% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), referencial de aplicações livres de risco.

Em 12 meses até abril, os multimercados trading, macro, estratégia específica e multiestratégia ostentam os maiores retornos entre todas as classes de ativos, sem considerar os fundos cambiais, que acumulam rentabilidade média de 35,04%. As carteiras têm ganhos polpudos de, respectivamente, 16,36%, 16,30%, 15,21% e 14,80%, conforme a Anbima.

Mesmo assim, com exceção dos multimercados macro, que registraram entrada líquida de R$ 1,63 bilhão em abril, a categoria registrou saques somados de R$ 3,95 bilhões.

A persistência da aversão ao risco, turbinada pela atração do elevado custo de oportunidade atual, pode ser percebida pela captação dos fundos curto prazo e DI que tiveram entradas de, respectivamente, R$ 3,55 bilhões e R$ 6,36 bilhões em abril.

Na avaliação de Marcelo Mello, vice-­presidente de investimentos da gestora de recursos do grupo SulAmérica, os fatores que influenciaram a alta da bolsa e o apetite ao risco no mês passado tendem a se manter em maio. Segundo o gestor, em abril dados mais fracos que o esperado pelo mercado em relação à atividade nos EUA influenciaram a perspectiva de um início mais tardio da alta de juros pelo Federal Reserve, o banco central americano. Junto com a mudança de expectativa, os estímulos monetários levados adiante pelo Banco Central Europeu e por outros BCs no exterior ajudaram a alimentar o apetite ao risco de investidores estrangeiros, pondera.

"Aquele receio de que o Fed pudesse antecipar a alta de juros ficou um pouco mais distante e fez com que os investidores buscassem mais risco. Além disso, o estímulo monetário europeu levou também os investidores do continente a buscar ativos de maior risco", avalia Mello. Para o gestor, mesmo que o Brasil não seja o preferido dos estrangeiros atualmente, o país tende a receber parte da liquidez global. "Tem uma questão importante que é a do câmbio. A partir do momento em que nós temos uma moeda depreciada em relação a de outros emergentes, a bolsa brasileira acaba ficando atrativa e isso acaba trazendo investidores internacionais", afirma.

Apesar do fluxo estrangeiro, Carlo Moratelli, sócio da More Invest, afirma que não há como defender a tomada de risco hoje. O investidor pessoa física olha o cenário econômico brasileiro, afirma, e não enxerga espaço para se arriscar no mercado financeiro. A melhora dos mercados em abril, segundo Moratelli, foi mais técnica do que por fundamento. O gestor compartilha da avaliação de Mello, da SulAmérica, em relação ao câmbio: "O dólar se valorizou e o Brasil ficou barato para o investidor estrangeiro, que voltou ao mercado local", diz Moratelli. Além disso, há o entendimento de que o aperto monetário nos Estados Unidos foi postergado.

A bolsa subiu, ressalta o sócio da More Invest, mas muito suportada por papéis como Petrobras e Vale. "Como defender a aplicação em Petrobras, em meio ao escândalo de corrupção, ou mesmo em Vale, com o minério de ferro pressionado para baixo?", questiona. Nem o gestor de ações de valor pegou essa onda, porque estava comprado em empresas mais sólidas.

De acordo com o gestor da More Invest, o ambiente ainda é de muita incerteza para estimular o investidor a fazer uma alocação maior em ativos mais arriscados, como bolsa. Além disso, lembra, o juro está em 13,25% ao ano.

Moratelli pondera, no entanto, que há espaço para colocar um pequena parcela do portfólio em ativos de risco, como em juro real de três anos. "Uma taxa acima de 6,5% é atrativa", defende. Mesmo o juro prefixado pode ganha espaço, se a inflação der sinais de que vai ceder e a confiança nas medidas fiscais melhorar.

O vice­-presidente da SulAmérica Investimentos, no entanto, defende que a perspectiva para os mercados em maio tende a ser menos pessimista. O gestor acredita que "tudo é uma questão de cenário". No plano internacional, considera ele, as condições de liquidez e apetite ao risco provavelmente se manterão no curto prazo. No âmbito doméstico, "se o investidor trabalha com um cenário no qual essa ortodoxia fiscal vai permanecer e o governo vai buscar um alinhamento político com o Congresso, você tem prêmio na bolsa e na renda fixa".

Para George Wachsmann, sócio da gestora de patrimônio GPS, o apego à renda fixa é o movimento natural de um investidor que até chegou a experimentar o risco na história recente, quando os juros chegaram ao patamar de um dígito, mas sofreu com o resultado. "A experiência não foi boa e agora a zona de conforto voltou a crescer", diz. Em seguida a uma decepção de curto prazo com a renda variável e os multimercados, o investidor depara­-se com uma combinação de juros de volta a patamares elevados e a disponibilidade de títulos isentos, que brilham aos olhos.

Não que o correto seja manter todo o portfólio indexado ao CDI, defende Wacshmann. Entre as posições preferidas da casa estão os títulos públicos indexados à inflação. "Tem mais prêmio do que bolsa", afirma. Hoje o prazo médio das carteiras dos clientes nesses papéis é de sete anos. A GPS também está atenta a oportunidades em prefixados, mas ainda não se animou a montar uma posição expressiva, pela volatilidade. O conforto virá, diz o sócio da GPS, quando o Banco Central sinalizar com o fim do ciclo de alta do juro e o eventual início da baixa.

Na visão do sócio da More Invest, só a partir do terceiro trimestre, quando devem sair os primeiros resultados de medidas fiscais já adotadas, a inflação mostrar menos pressão e o juro começar a ceder, é que será possível ter uma parcela maior em ativos de risco, como em prefixados, multimercados e ações.

O gerente-­executivo de fundos de ações da BB DTVM, Jorge Ricca, alerta ainda para a eventual volatilidade do fluxo de recursos que tem sido direcionado para os emergentes. O gestor classifica a volta dos estrangeiros à bolsa brasileira como "data­-dependente". "Na minha visão esse fluxo continua enquanto não houver uma sinalização mais concreta de fôlego da economia americana", diz. Se a atividade nos EUA, em especial, os indicadores do mercado de trabalho mostrarem mais força, pode haver um "recrudescimento do fluxo para os emergentes".

Na avaliação do vice­-presidente da SulAmérica, o mês de maio pode marcar a recuperação de outra classe, a dos multimercados. Segundo Mello, dentro de um cenário de maior apetite ao risco e com o bom histórico no ano, essas carteiras podem começar a atrair mais recursos. "Os multimercados conseguem capturar os prêmios de diversas classes de ativos, pois são fundos [de estratégias] mais flexíveis", avalia.

Apesar do mês de abril ruim, especialmente por conta do dólar, os multimercados continuam a atrair a GPS, que enxerga um cenário mais direcional do que o do ano passado, facilitando a execução de estratégias. Já quando o assunto é bolsa, os portfólios dos clientes da GPS estão nas mínimas históricas.

Moratelli, da More Invest, destaca uma categoria de multimercados, a macro, como opção para alocação em risco, mas controlado. Segundo o gestor, as carteiras voltaram a entregar resultados no ano, principalmente com a alta do dólar.